quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A mágica...

Hoje aconteceu uma coisa linda no hospital...
Um grande amigo nosso está internado há 6 semanas.
Ia embora de vez do hospital essa sexta-feira, mas acabaram estendendo o tratamento por mais 2 semanas.
Ele estava desanimado, mas tudo bem... Daríamos muita alegria para remediar um pouquinho aquela situação.
Mas, no final da visita, e de repente, ele saiu pelo corredor com o celular na mão me procurando com os olhos, dizendo "pera aí filha, encontrei a Marina, pode falar com ela agora".
Sua filhinha de 7 anos, que já havia conversado comigo pelo celular em outra visita, queria falar comigo.
"Ela me ligou na terça perguntando de vocês, mas eu disse que tinham vindo ontem e ela chorou porque eu não tinha ligado pra ela poder conversar com você", disse me entregando o celular.
Comecei a conversa com a garotinha que chorava no celular, e no meio deste papo tão doce, eis que surge a mágica...
"Quer falar com mais alguém do grupo?"
"Não..."
"Quer falar com seu pai?"
"Não, já falei com ele..."
"Com quem quer falar?"
"Com você".
"Está certo... Mas o que foi? Por que está chorando?"
"Meu papai, ele não vem mais pra casa..."
Como um passe de mágica, chega nosso amigo e me fala com os olhos brilhando: "Ficou sabendo? Eles me liberaram pra passar o final de semana em casa! Vou sexta e volto na segunda!".
Meu coração pulou de alegria!
"Aimée, seu papai precisa ficar aqui no hospital mais um pouquinho só, mas fica tranquila que estamos cuidando muito bem dele, viu? Mas vamos fazer assim, eu te empresto ele na sexta, e você me devolve ele na segunda, pode ser? Porque ele é muito legal, e vão ser os últimos dias que eu vou poder ficar com ele aqui também... Você me empresta ele mais um pouquinho, se eu te emprestar primeiro?"
Ela parou de chorar e me respondeu sem nem relutar!
"Empresto!"
Me mandou cuidar bem do papai dela e se despediu me mandando muitos beijos.

Tem coisa mais meiga que o amor de uma criança?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Um dia diferente...

Hoje o dia foi ótimo no hospital.

Uma senhora da Oncologia me puxou para si, quase como um ímã.
Eram os olhos, os braços e o sorriso...
Me mostrou as fotos de seu neto, que hoje completava 2 meses de vida e, ao pedir para cantarmos "parabéns", ela caiu no choro.
Houve abraços, cafunés e conversas... Mas o sorriso só veio quando coloquei no rosto dela meus óculos verdes em formato de coração.
Logo depois disso, ela pediu para que eu escrevesse algo no verso da foto para ele.

"Que esse Gabriel seja mais que um anjo.
Que seja uma mágica, abençoado e cheio de luz!
Beijo da Palhaça Pom-Pom"


É... Foi o melhor que saiu na hora com a música e as emoções rolando soltas.
Mas ela entendeu o meu recado... Eu sei que sim!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Último dia de Visita antes das Férias.


Um dia compensa o outro no grupo.
Pode ser que um dia de visita seja muito triste, pesado e desanimado... Mas logo vem outros que te relembrarão não só a importância de se doar para o próximo, mas também a delícia de se fazer isso.
Hoje foi a última visita antes de um mês de férias do grupo.
Os últimos encontros haviam sido tensos. O grupo passava por mudanças e adaptações, as situações nos leitos estavam pesadas e as visitas, por mais que fossem prazerosas e trouxessem histórias inesquecíveis, desgastavam mais que alegravam.
O papel do palhaço de hospital é o de propiciar alegria, bem estar, bom humor e amenizar dores e desconfortos provenientes da doença e do processo de hospitalização.
Certo. Mas e como ficam esses profissionais?
Acredito que algumas pessoas não se atentam para isso.
Eu não me atentava, até ser um deles.
Temos que nos doar, e transmitir tudo o que tivermos de bom em nós, sem nos apegar tanto, de forma a sofrer demasiadamente com as perdas, e sem ser desapegado o suficiente para parecer frio.
Além disso, temos que rebolar para que não nos contagiemos com a tristeza do hospital.
É difícil. Nosso psicológico tem que ser bem trabalhado e temos que estar em harmonia, não só conosco mesmo, mas também com os outros integrantes do grupo.
Mas dias como o de hoje me fazem reviver.

O hospital parecia o paraíso. A música era um luau. Os palhaços eram artistas. Os pacientes, anjos. Os acompanhantes, mágicos. Os profissionais da equipe de saúde eram estrelas. E a visita em si, foi um show.
Tudo saiu tão perfeitamente bem que eu duvido que desse para melhorar.
Eram vozes, histórias, sorrisos, brilho nos olhares, carinho, respeito, calor e muita humanidade sendo lançados o tempo todo, por todos.
E não apenas as visitas foram maravilhosas, como também a comunicação dos integrantes do grupo estava em perfeita harmonia.
Tudo estava em equilíbrio. O dia foi inesquecível. 

Se tem algo que eu aprendi nesses anos visitando hospitais e estando cara a cara com a vida e a morte, foi como viver de verdade.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Airton e Teresa.


         Que dia triste hoje no Feliz.
      Recebi, com muito pesar, a notícia que dois senhores, os quais eu tinha muito apreço, haviam falecido.
       Seu Airton e D. Teresa não resistiram aos efeitos da hospitalização.
         O Feliz perdeu a cor naquele dia. Eu perdi um pouco do sorriso... Das forças.
       Como continuar com a mesma leveza?
     A visita se desenrolou, novos idosos ocuparam seus lugares, mas meu sorriso estava menos feliz. Não tanto pelos que descansaram, mas mais por suas famílias, que conversavam comigo e me olhavam com esperança de que eu pudesse ajuda-los, de que aquela situação pudesse mudar comigo por perto.
            Sempre tive essa sensação.
            Por pior que a situação estivesse, os familiares e amigos me olhavam com aquele clima de que não importava a tristeza momentânea, porque a vida sempre continuava... O bom, o bonito e o bem, ainda estavam por lá.
            Como se fôssemos a mágica em pessoa, a prova viva da felicidade.
            E sendo assim, é como se eu tivesse falhado com eles. É como se eu, por mais que representasse o bem, a alegria, as coisas boas, fosse impotente diante da morte, diante da dor.
            Foi a primeira vez que parei para pensar nisso... E me doeu.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Cirlei e Maria.


       
    D. Antonia dormia profundamente quando entrei no quarto.
     Cada palhaço foi para um leito, e como ela dormia, todos passaram reto.
     Eu não havia reparado, mas uma senhora me olhava, esperando que alguém fosse até ela. Uma colega me avisou, e lá fui eu.
    - Olá, a senhora é filha da D. Antonia? – perguntei.
            - Sou sim, sou a acompanhante de hoje.
            E assim começou nosso papo.
D. Antonia, de 88 anos, 8 filhos – 4 homens, 4 mulheres -, tem mal de Alzheimer. Perdeu dois filhos para a bebida, e a memória recente, para a doença.
Mas o papo hoje era com Cirlei, aquela que diz ter decorado como assinar o seu nome, já que não sabia escrever. Ela me pareceu uma mulher muito forte, e de muita fé. Acredita em Deus, e em Jesus Cristo, apenas. “Deus sabe o que faz”, me disse várias vezes.
Realmente, ele sabe.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Catarina Maria, Maria Aparecida, Nilva.


            Que dia estranho, pesado... Difícil.
            Cheguei para conversar com D. Catarina Maria, que apenas me respondia com o olhar.
            Não conseguia entender o que ela queria ou não. Seus olhos me pediam ajuda, mas nada mais diziam para que eu pudesse ajudar.
            Não consegui ficar na mesma sintonia que ela... E isso me frustrou.
            Perguntei se ela queria que eu fosse embora. Ela faz que “não”, balançando a cabeça. Depois perguntei se ela queria que eu ficasse. Ela fez o mesmo movimento.
            Eu ficava confusa, sem saber o que fazer, como ajudar e o que ela queria.
            Aos poucos, fui percebendo que D. Catarina Maria queria ficar sozinha...
            Quando estava saindo, vi outros olhos me procurando. Era D. Maria Aparecida, que sorria para mim do outro lado do quarto.

            Ela tinha Alzheimer, e sofreu um AVC. Por conta disso, pouco se lembrava de fatos recentes, confundia seu passado e as pessoas, perdia o fio da conversa, tendo dificuldade de manter o foco em algo por algum espaço de tempo e fantasiava histórias que não tinha vivido.
            Com toda essa confusão, quem mais sofria era sua filha, D. Nilva.
            Enquanto D. Maria Aparecida viajava em histórias sobre gavião, cursos do rio e o casamento há bem mais de 30 anos atrás que ela JURA que me convidou e que eu estava presente, sua filha sofria ao ver sua mãe tão confusa.
            Parei um pouco de dar tanta atenção em D. Maria, para dar apoio para sua filha, que parecia angustiada enquanto sua mãe falava.
            Fomos conversando e eu sentia tristeza e cansaço em sua voz. Toda a situação com a mãe, com o pai e o irmão que também estavam doentes, já lhe pesava muito.
            Mas, bem naquele dia, sua mãe tinha recebido alta, e ia com seu pai para um local apropriado, com cuidado e profissionais.
            As coisas estavam melhorando para ela, que ia ter um pouco de descanso e logo tiraria as férias. Enquanto conversava comigo, ela suspirava, respirava fundo e sorria.
            O peso ia saindo de suas costas, e isso era fisicamente visível. LINDO de se ver.
            - Ela está bem, conversa, sorri, vive histórias, vai ter cuidado profissional, e a senhora precisa descansar! Agora vai ficar tudo bem... – eu dizia.
            E ela sorria, acreditando piamente em tudo o que eu dizia, de coração.
            E logo que eu terminei de dizer, chegou o médico, a enfermeira e uma cadeira de rodas, prontos para pegá-la. Ela ia sair do Hospital.
            Ao terminar a visita, eu andava pelo corredor quando ouvi alguém me chamando.
            - Você precisava estar na hora da música, para cantar, dançar... Animar!
            É, eu realmente precisava...
            Hoje talvez eu não tenha salvado o FelizIdade... Mas, com certeza, ele me salvou!

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sebastião, Renata.


          Conversei pouco com o Seu Sebastião, que me jurava ter por volta de 10 anos de idade. De acordo com sobrinho, ele teria quase 83.
            Enquanto estava lá, meu anjo Rafael me chamou, para matar a saudade.
            Disse que ia recitar um poema para mim – pena que não o entendi por completo, só algo como “Se você for embora, escreva uma carta para mim. Se não tiver papel, escreva nas asas de um canarinho” -, mas tudo bem não ter entendido tudo, porque o principal vinha logo a seguir.
            - Ah, que lindo! O senhor só me recitou este poema porque me ama... – eu disse sorrindo.
            - Amo mesmo... Do fundo do meu coração. – respondeu.
            Ah, que coisa mais deliciosa de se ouvir.
            Saindo de lá, deixando meu anjo, e o gatão do Seu Sebastião, fui para outro quarto, convocada por um outro colega palhaço, para conversar com uma mulher.

            Renata, 40 anos, ex-diarista, diabética – e mais uns 13 problemas aí.
            Me contou sobre sua filha Rafaela, seu ex-marido, pai de Rafaela, sua mãe, sua irmã, seu “paquera” de 12 anos, motorista, dono de um cachorrinho fofo, sua amiga, que lhe dá abrigo e ajuda e sobre seu sonho de ter sido farmacêutica.
            Sobre sonhos... E sonhos...
            Neste quarto, cumprimentei Seu João, marido apaixonado de D. Teresa e D. Laurinda, que disse estar com saudade de mim. Que delícia!
            E a música hoje pareceu um luau... Tão leve, tão animada e tão contagiante...
            E saindo de lá, já as 19h30, corri com a música para a Oncologia, onde mais 3 homens nos esperavam para se divertir um pouco.
            No outro quarto, preferimos não cantar... O clima estava muito pesado.
            O dia foi bem diferente do que estou acostumada... Cheio de luz, muito amor sendo emanado. Me senti leve, e meu coração bateu mais feliz.
            O FelizIdade me salvou nesse dia.

José Rafael.


              - Seu Rafael? Nome de anjo. – eu disse.
            E um sorrisão enorme e cheio de luz apareceu para eu ver que aquele não era apenas um nome de anjo, mas sim, um anjo inteiro.
            Com 63 anos, meu anjo da guarda do Hospital das Clínicas resolveu me cantar uma música de Jacó e Jacozinho, chamada Cavalo Enxuto.
            E não só cantar, como também contar, resolveu me mostrar o outro lado do amor. O lado que machuca. Me contou que saiu do centro do Brasil e veio para Ribeirão por conta de sua ex-mulher, que lhe traiu ao chegar nesta cidade.
            E não é que homem também sofre por amor?
            E enquanto eu dançava – como uma dama, de vermelho, segundo ele -, ele me olhava sorrindo. Era um anjo mesmo.
            O meu anjo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Teresa.


               Hoje foi um dos dias mais difíceis na visita.
            Dona Teresa, de 76 anos, vivia num mundo paralelo, só dela. Má circulação, pneumonia duas vezes, e outras coisinhas mais... Mal olhava para os outros, mal ouvia, quase não respondia.
            Resmungava baixo um “Ai meu Deus do céu” vez ou outra.
            Acompanhando uma caloura, foi mais difícil ainda... Achava que de lá, não sairia nada... Até que comecei a reparar no jeito que seu neto, José Henrique, enfermeiro com 30 anos, formado pela UNICAMP, a tratava.
            Era cuidado, carinho, compreensão, amor, profissionalismo e, acima de tudo, muito respeito. Era lindo de ver. Poderia ficar o dia inteiro ali como ele cuidava dela, e como brincava com ela. Mexia no cabelo, a imitava, chegava pertinho para ouvi-la e a ajudava mudar de posição.

            Olhei e absorvi tudo aquilo com muito afinco, achando que aquela seria a única experiência positiva que eu tiraria de lá. Mas o que eu não sabia é que aquela senhora, que vivia em outro mundo, me surpreenderia.
            Percebi que ela respondia melhor às pessoas que ela conhecia: neto, filha, amigos... Mas quando disseram o nome de seu marido, o João, foi quando ela voltou para esse mundo... Mesmo que por fração de segundos.
            É paixão, D. Teresa? – perguntei.
            É paixão! – respondia certa.
            56 anos casados... Que delícia! Só podia ser mesmo paixão...
            E quando o João chegou, com aquele sorriso no rosto, brilho no olhar e muito amor para dar, foi que vi que o amor realmente existia. Ele existe, e vive... E faz viver!
            Ela estava lá sorrindo, esperando o amor dela.
            Mas logo ela se desligava de novo com os outros... E tudo o que eu queria era poder entrar no mundo dela para conhecê-la melhor. Não queria que ela viesse para esse mundo.
            Com o João – e outros familiares – lá, resolvi sair para deixa-los mais a vontade, e fui lavar as mãos, já que não tinha reparado na placa de “risco de contato”, e a ajudei a mudar de posição na cama algumas vezes. Assim que voltei, a ouvi resmungando baixo alguma coisa, e todos olhando em minha direção.
            Foi aí que me aproximei e pedi para que ela repetisse o que havia dito.
            Vem aqui pra nóis conversar um pouquinho! – ela pediu.
            Eu tinha conseguido... Tinha entrado no mundo dela! Tinha valido a pena... De novo. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Lindalva.


          “Pom-Pom, com quem você quer conversar? Com a garota da esquerda, ou com a senhora da direita?”
            Foi assim que começou a noite. Pela primeira vez tive uma “pupila” e pude dar algumas dicas sobre o quê conversar, como chegar, como sentir o clima do local... Mas reparei ali que não podia ensinar como se entregar e que isso era algo que vinha de cada um.
            Dona Lindalva, de 54 anos, é uma mulher de família grande... Teve dois maridos, quatro filhos – três homens, e uma mulher – e muitos netos. Diz parecer mais velha por conta dos trabalhos que teve: trabalhou na roça, com produtos de limpeza e em asilos.
            Quando parou nos asilos, falou tudo com muito amor, saudade, carinho... É uma mulher que tem o coração maior que o peito.
            Depois, enquanto nos contava sua vida, sorria ao lembrar das paqueras na praça de Altinópolis e do namoro à sombra das árvores... E ao contar seus causos no Hospital – principalmente o da calcinha -, percebi que aquela era uma mulher que sabia ver o lado bom das coisas, e que tinha o riso como seu aliado.
            Sabia que ela logo sairia de lá... E ela também sabia disso. Por isso rimos... A noite inteira!

domingo, 21 de abril de 2013

Juracy, Nádia, Odete.


      Que prazer poder reencontrar senhoras que já conquistaram um espacinho do meu coração toda vez que entro no hospital... Mesmo que elas não tenham ainda ido para seus lares, meu coração sorri quando vejo um rosto amigo.
Melhor ainda é ter o prazer de, em uma visita, conversar com três senhoras lindas ao invés de uma só... E eu tive esse prazer hoje. Conversei com três senhoras muito parecidas... Mas completamente diferentes.

Dona Juracy é uma senhora de 70 anos. Viveu na roça, seu marido – sua alma gêmea, como ela mesma disse – trabalhava na prefeitura e não a deixou trabalhar fora de casa, como era de costume. Cuidou e continua cuidando de três filhos, já que hoje, apenas a mais velha está casada.
O que mais me chamou a atenção nessa senhora é que, apesar de muito simples, era de uma sabedoria que não cabia nela. Para mim, ela era a verdadeira filósofa... Aquela pessoa que vive e aprende com cada situação, que a revive, reflete sobre e constrói uma visão crítica sobre a vida, sobre as pessoas e as circunstâncias.
Dona Juracy falou, em pouco tempo de conversa, algumas frases que muito marcam meu estilo de vida.
Ela disse: “Nada é errado. O que é certo para você, é errado para mim. Tudo é relativo.” Realmente... Tudo tem sempre dois lados, e muitos pontos de vista.
Depois, falando do céu, da vida e da morte, perguntei como ela achava que era o paraíso... Ela me respondeu que “o paraíso é aqui, é em qualquer lugar... Ele depende você e de quem está com você”.
Eu nunca tinha pensado nisso... Não dessa forma. Resolvi então, que ia fazer dos meus dias sempre um paraíso.
Por fim, após contar que tinha perdido um filho, concluiu que “não adianta enlouquecer. Dói, mas logo estaremos todos juntos em outro plano”. Quanta serenidade, quanta fé, quanta certeza de algo tão doloroso.
Foi uma lição de vida.
A segunda senhora era totalmente diferente. Dona Nádia é famosa no Hospital. Como não conhecer tamanha alegria, espontaneidade e vontade de viver? É, sem sombra de dúvidas, uma das senhoras mais animadas do Hospital. Nádia é uma jovem idosa, cheia de vida, de histórias, e de vontade de viver... Ela vive à frente de seu tempo, é atualizada, sabe um pouco de cada coisa e trata qualquer situação com muita diversão.
Se descreve como perua. Ama inovar o cabelo, se baseia nas famosas para a escolha de roupas e tem uma opinião muito crítica, e particular em relação a travestis, homo e bissexuais. Falou sobre drogas, prostitutas, juventude, e de como as coisas “mudaram”. Mudaram entre aspas, porque ela afirmou que em seu tempo, tudo o que existe hoje já existia... Só que era tudo escondido!
Sempre jovem e inovadora, Dona Nádia terminou o papo falando sobre homens, e quais fazem seu tipo – homens fortes, tipo trabalhadores de campo, sexys e nada de corpinho lisinho.
Foi um barato ver uma criança presa naquele corpinho mais vivido.
Foi então que alguns anjos no quarto me falaram que havia uma senhora isolada, esperando por um bom papo. Olhei entre as cortinas e vi mesmo uma senhora frágil deitada de lado, de costas para mim. Achei que estava dormindo, mas elas insistiram para que eu fosse até lá. Fiz isso.
Dona Odete? E ela me olhou com olhinhos esperançosos. Perguntei se ela gostaria de conversar, ou se preferia descansar. Ela optou pela conversa.
Dona Odete pareceu ser bem menos cheia de vida que a Dona Nádia, e bem menos sonhadora que Dona Juracy. Seu corpo estava cansado, sua mente confusa, e seu coração apertado. Com 83 anos de idade, ela tinha passado pela dor mais dolorosa que uma mãe podia passar... Perdeu um filho. Tão recente, há poucas semanas, seus olhos marejavam toda vez que ela tocava no assunto. Eu podia ver, e sentir com ela, um nó na garganta quando dizia “foi infarto... Perdi um filho”.
Eu queria dar todo o meu amor para ela, pegá-la no colo e protegê-la dessa dor... E era exatamente isso o que aqueles olhos me pediam... Me pediam paz, socorro, esperança.
Eu conversei um pouco, dizendo que ele estava no melhor lugar do universo agora, olhando por ela todos os dias. Disse que ele estaria agora sempre com ela, e tentei mudar de assunto...
Senti que se eu não pudesse livrá-la daquela dor, poderia, pelo menos, compartilhar dela... E partilhando, talvez ela ficasse um pouco menor.
Dona Odete podia parecer ser menos cheia de vida, e menos sonhadora... Mas foi a que mais se entregou a mim, esperando um apoio, conforto... Uma amiga... E ela conseguiu ter o que eu mais prezo em mim... Meu coração.

Maria Aparecida.


         Ao chegar no quarto, dei um abraço e soltei um elogio para cada senhora que lá estava... Elas sorriram para mim, animadas, me elogiando de volta, e me abençoando!
       Como é bom começar um trabalho quando se tem muita energia positiva para dissipar, dividir...
        Finalmente, me dirigi a Maria Aparecida... Ou Aparecida Maria?
        Pois é, muitas histórias de uma senhorinha de 83 anos que tinha tido um infarto. Quantas histórias, quantas lembranças, quantos números! E os números me chamaram muito a atenção na dona Aparecida.
        10 filhos. 21 netos. 7 bisnetos.

            Que família! Dá para dizer que essa senhora não viveu? Bom, agora com “a idade que chegou”, ela diz viver através dos netos.
            E com tanta vivência, não tem também como não se viver a dor.
            Dona Aparecida, com os olhos d’água, me contou que perdeu 4 filhos, e logo depois me veio com uma frase que doeu... Acho que peguei um pouco da dor dela para mim...     
            “Perdi 4 filhos, meu pai, minha mãe e meu marido... E não existe dor tão doída quanto a dor de se enterrar um filho”.
            Pois é, eu não duvido... E na hora, eu não soube muito o que dizer... Mas ela sabia. Agora tem outros filhos, e netos, e bisnetos... Tem muito pelo o quê se viver ainda!
            E logo a música chegou, ela pediu Sérgio Reis, e as palmas vieram... Sorrisos, brilho no olhar, cantoria... Ela ainda estava vivendo... E muito bem! 

sábado, 20 de abril de 2013

Laurinda.


Depois do susto quando ouvi “A enfermeira me derrubou no banho”, percebi que a vida dessa senhora era mais uma história que ela contava, do que uma história que ela vivia.
Digo que era mais uma história contada que realmente vivida porque eu percebia, em cada conto, um tom a mais em suas palavras e um brilho no olhar ao relembrar o que ela tinha passado. O tom a mais era ora melodramático, ora sombrio. Era ora amargurado, ora simplesmente triste.
Quando entrei no quarto, vi uma senhoria pequena e frágil sentada em um canto, com a bandeja de comida no colo e olhos fundos, procurando algo diferente para pousarem. Aqueles olhos encontraram os meus.
Me dirigi a ela sem pensar, como ímã. E quando cheguei perto e me sentei ao seu lado me apresentando, ela abriu um sorriso que eu não achei que fosse possível caber naquele rosto tão sofrido. Eu sorri de volta. E tem como não ser assim? O sorriso é algo contagioso.
Ao perguntar sobre o motivo de ela estar internada, me veio o susto com a notícia do tombo no banho. Antes de tirar qualquer conclusão, continuei a conversar... Queria saber com quem estava trocando ideias. Quem era aquela senhora esguia? Pelo o que ela tinha passado?
A conversa se desenrolou e ela me contou mais duas quedas, sempre seguidas de “eu estava ótima antes de ter caído”. Tudo bem... Queria ouvir ainda mais. E ouvi, e perguntei... E suguei tudo o que eu pude daquela senhorinha.
Foi aí que percebi o tom que usava para dar ênfase à sua vida. Ela relatava cada acontecimento com muito furor, paixão, e dó de si mesma.
Isso me incomodou. Mas eu queria sugar ainda mais.
O relato de sua vida era demasiadamente sensível e triste. Era uma senhora que se colocava em papel de vítima por achar que a vida toda tinha feito muito mais pelos outros, que os outros por ela.
E foi ali que dei de frente, cara a cara com um dos meus maiores medos: a solidão. A solidão me assombra, e encontrá-la tão de perto assim, me deu calafrios. Com esse aperto no peito, medo de me enxergar ali daqui alguns anos, resolvi parar de sugar, e aí passei a emitir, para voltarmos ao equilíbrio.
Já tinha tirado muito daquela senhora. Já tinha feito aflorar muitos sentimentos. Era hora de retribuir dando, além de atenção, conforto. E quem combate a solidão, é o amigo. Quem combate a solidão, é a pessoa que se importa. E com aquela senhorinha, naquele dia, eu me importava. Eu estava lá para ela. E fui dando o melhor de mim.
Enquanto eu falava para acalentar aquele coração, fui me descobrindo ainda mais. Descobri meus medos, e como combatê-los. Me descobri não só Pom-Pom, como também Marina.
Com certeza, hoje, eu não apenas ajudei, como também fui ajudada. Neste dia, essa senhora não sentiu a dor solidão... Nem eu... Estávamos juntas.

Claudemir.


No hospital, um senhor em um dos quartos, ao ver os palhaços chegarem, disse que não queria visita. Não queria conversa, nem música, nem companhia.
Respeitando sua decisão, os palhaços se dirigiram aos outros quartos onde cantaram, dançaram, riram, falaram e, principalmente, ouviram.
Compartilhar da vida dos pacientes é a coisa mais gostosa que dá pra se fazer enquanto palhaço de hospital.
Ao terminarem, enquanto os palhaços conversavam e se aprontavam nos corredores para irem embora, eu passava pela porta do quarto desse senhor.
Dei um oizinho do lado de fora, e ele abanou a mão para mim de volta.
Dei um sorriso do lado de fora, e ele me sorriu de volta.
Foi aí que percebi que, mesmo eu estando do lado de fora, estávamos na mesma sintonia. Eu mandava, ele recebia e mandava de volta.
Então, perguntei se ele estava bem, com um joinha. Ele me deu um joinha de volta, bem cabisbaixo.
Resolvi ir entrando ao poucos e perguntando sobre ele, nome, idade, o motivo de estar internado, e fui me apresentando como a palhaça Pom-Pom!
Ao ver vários sorrisos querendo aparecer no rosto daquele senhor, perguntei o que ele mais queria agora, além de ficar 100% bem. Ele me respondeu que queria ouvir uma música. 60 dias apaixonado.
Pedi para aguardar um pouco e saí atrás dos meninos da música. Por sorte, eles sabiam tocar e cantar a música escolhida.
Assim que os meninos entraram no quarto e deram um show no violão e na voz, os olhos do senhor encheram d'água... E enquanto cantavam, ele cantava junto, sorrindo e pensando.
"Essa música é minha história, traz saudade".
Depois nos despedimos. Eu com paz no coração, e ele me dizendo que estava menos sozinho agora, que logo ficaria bom e sairia de lá.

Foi um dos dias mais sensíveis dessa palhacinha aqui.

Colecionadora...




O dia 20 de abril se inicia, e finalmente, neste mesmo dia, também dou início a um grande sonho.
Mas que sonho? Quem sou eu?
Prazer, caro leitor.
Sou uma criança... Bom, como tudo nesta vida é relativo, ser criança também depende do ponto de vista.
Tenho pouco mais de 23 anos, mas acredito que minha alma seja um pouco mais... Experiente.
Ao mesmo tempo, acredito que sou mais criança que muitas crianças por aí.
Bom, deixemos de lado as convenções...

Eu sou alguém que ama as pessoas.
Amo a forma como pensam, como agem e como se enxergam.
Amo o ser humano e como ele se comunica, transmite informações e fantasia.
E não sou só eu que ama a loucura de nosso cérebro, certo?
Ainda mais quando usamos apenas uma pequena parcela dele...
O que será que ele ainda esconde?

Enfim, descobri que sou uma boa ouvinte, leitora e companhia para uma prosa promissora.
Descobri que faço as pessoas se sentirem melhor, só porque eu me importo com elas... E de verdade.
E descobri tudo isso com amigos, com a família e, principalmente, em projetos voluntários.

Pintar meu rosto de palhaça (Palhaça Pom-Pom, prazer - vide fotos!) e ir para os hospitais ouvir, conversar, rir e, principalmente, me doar, é o que mais quero... E para o resto da minha vida!

Além disso, descobri que é ao compartilhar experiências, que damos um pouquinho de nós, e pegamos um pouquinho do outro.
Por isso a ideia de COLECIONAR VIDAS.
Ao interagir com o outro, é que passo a colecionar histórias, sonhos, tristezas, angústias, medos, esperanças... Coleciono pessoas.
Coleciono vidas.

Te convido a vir comigo nesta jornada.
O que acha?
Aqui, compartilharei as mais diferentes histórias...
Por que não se engrandecer e tirar o melhor de cada uma delas?

Bom... Que a coleção comece...