terça-feira, 23 de abril de 2013

Teresa.


               Hoje foi um dos dias mais difíceis na visita.
            Dona Teresa, de 76 anos, vivia num mundo paralelo, só dela. Má circulação, pneumonia duas vezes, e outras coisinhas mais... Mal olhava para os outros, mal ouvia, quase não respondia.
            Resmungava baixo um “Ai meu Deus do céu” vez ou outra.
            Acompanhando uma caloura, foi mais difícil ainda... Achava que de lá, não sairia nada... Até que comecei a reparar no jeito que seu neto, José Henrique, enfermeiro com 30 anos, formado pela UNICAMP, a tratava.
            Era cuidado, carinho, compreensão, amor, profissionalismo e, acima de tudo, muito respeito. Era lindo de ver. Poderia ficar o dia inteiro ali como ele cuidava dela, e como brincava com ela. Mexia no cabelo, a imitava, chegava pertinho para ouvi-la e a ajudava mudar de posição.

            Olhei e absorvi tudo aquilo com muito afinco, achando que aquela seria a única experiência positiva que eu tiraria de lá. Mas o que eu não sabia é que aquela senhora, que vivia em outro mundo, me surpreenderia.
            Percebi que ela respondia melhor às pessoas que ela conhecia: neto, filha, amigos... Mas quando disseram o nome de seu marido, o João, foi quando ela voltou para esse mundo... Mesmo que por fração de segundos.
            É paixão, D. Teresa? – perguntei.
            É paixão! – respondia certa.
            56 anos casados... Que delícia! Só podia ser mesmo paixão...
            E quando o João chegou, com aquele sorriso no rosto, brilho no olhar e muito amor para dar, foi que vi que o amor realmente existia. Ele existe, e vive... E faz viver!
            Ela estava lá sorrindo, esperando o amor dela.
            Mas logo ela se desligava de novo com os outros... E tudo o que eu queria era poder entrar no mundo dela para conhecê-la melhor. Não queria que ela viesse para esse mundo.
            Com o João – e outros familiares – lá, resolvi sair para deixa-los mais a vontade, e fui lavar as mãos, já que não tinha reparado na placa de “risco de contato”, e a ajudei a mudar de posição na cama algumas vezes. Assim que voltei, a ouvi resmungando baixo alguma coisa, e todos olhando em minha direção.
            Foi aí que me aproximei e pedi para que ela repetisse o que havia dito.
            Vem aqui pra nóis conversar um pouquinho! – ela pediu.
            Eu tinha conseguido... Tinha entrado no mundo dela! Tinha valido a pena... De novo. 

4 comentários:

  1. Acho que sempre vale a pena não? como já te disse, se alguém não começar nunca vai haver mudança.


    Isadora Rodrigues

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  2. Concordo!
    Mas uma andorinha só, não faz verão.
    Precisamos mover o mundo!!

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  3. A cada história que leio aqui no blog, eu tiro uma lição! Me pego ora sorrindo, ora com lágrimas nos olhos, ora arrepiada, mas uma sensação de cócegas no coração ao final de todas elas.
    Lindo blog, linda atitude, linda Marina!

    Luana Moraes

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  4. Muito obrigada, Lú!
    Suas palavras são sempre cheias de luz!!
    Espero poder contar sempre com elas aqui...
    E que bom que sensações aparecem ao ler as histórias... É realmente essa a intenção!
    Mexer, mover, mudar... (:

    Volte sempre!
    Super beijo.

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