sábado, 20 de abril de 2013

Laurinda.


Depois do susto quando ouvi “A enfermeira me derrubou no banho”, percebi que a vida dessa senhora era mais uma história que ela contava, do que uma história que ela vivia.
Digo que era mais uma história contada que realmente vivida porque eu percebia, em cada conto, um tom a mais em suas palavras e um brilho no olhar ao relembrar o que ela tinha passado. O tom a mais era ora melodramático, ora sombrio. Era ora amargurado, ora simplesmente triste.
Quando entrei no quarto, vi uma senhoria pequena e frágil sentada em um canto, com a bandeja de comida no colo e olhos fundos, procurando algo diferente para pousarem. Aqueles olhos encontraram os meus.
Me dirigi a ela sem pensar, como ímã. E quando cheguei perto e me sentei ao seu lado me apresentando, ela abriu um sorriso que eu não achei que fosse possível caber naquele rosto tão sofrido. Eu sorri de volta. E tem como não ser assim? O sorriso é algo contagioso.
Ao perguntar sobre o motivo de ela estar internada, me veio o susto com a notícia do tombo no banho. Antes de tirar qualquer conclusão, continuei a conversar... Queria saber com quem estava trocando ideias. Quem era aquela senhora esguia? Pelo o que ela tinha passado?
A conversa se desenrolou e ela me contou mais duas quedas, sempre seguidas de “eu estava ótima antes de ter caído”. Tudo bem... Queria ouvir ainda mais. E ouvi, e perguntei... E suguei tudo o que eu pude daquela senhorinha.
Foi aí que percebi o tom que usava para dar ênfase à sua vida. Ela relatava cada acontecimento com muito furor, paixão, e dó de si mesma.
Isso me incomodou. Mas eu queria sugar ainda mais.
O relato de sua vida era demasiadamente sensível e triste. Era uma senhora que se colocava em papel de vítima por achar que a vida toda tinha feito muito mais pelos outros, que os outros por ela.
E foi ali que dei de frente, cara a cara com um dos meus maiores medos: a solidão. A solidão me assombra, e encontrá-la tão de perto assim, me deu calafrios. Com esse aperto no peito, medo de me enxergar ali daqui alguns anos, resolvi parar de sugar, e aí passei a emitir, para voltarmos ao equilíbrio.
Já tinha tirado muito daquela senhora. Já tinha feito aflorar muitos sentimentos. Era hora de retribuir dando, além de atenção, conforto. E quem combate a solidão, é o amigo. Quem combate a solidão, é a pessoa que se importa. E com aquela senhorinha, naquele dia, eu me importava. Eu estava lá para ela. E fui dando o melhor de mim.
Enquanto eu falava para acalentar aquele coração, fui me descobrindo ainda mais. Descobri meus medos, e como combatê-los. Me descobri não só Pom-Pom, como também Marina.
Com certeza, hoje, eu não apenas ajudei, como também fui ajudada. Neste dia, essa senhora não sentiu a dor solidão... Nem eu... Estávamos juntas.

2 comentários:

  1. Nascemos sozinhos e vamos morrer sozinhos, ninguém nos ajuda nessas duas passagens, se posso assim chamar, mas durante a estadia aqui na Terra, não estamos sozinhos e dificilmente vamos estar, como por exemplo esse dia você estava com essa senhora.
    E você em especial tem família e amigos que dão muito valor em você então não vejo motivos pra tal medo, mas o entendo pois também tenho.

    beijos irmã

    Isadora Rodrigues

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  2. "Família é quem você escolhe pra viver, é quem você escolhe pra você!
    Não precisa ter conta sanguínea, é preciso ter sempre um pouco mais de sintonia!"
    (O Rappa)

    Você também é minha família e eu, a sua!
    Não precisamos temer a solidão.

    Te amo.
    Beijos, irmã.

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