domingo, 21 de abril de 2013

Juracy, Nádia, Odete.


      Que prazer poder reencontrar senhoras que já conquistaram um espacinho do meu coração toda vez que entro no hospital... Mesmo que elas não tenham ainda ido para seus lares, meu coração sorri quando vejo um rosto amigo.
Melhor ainda é ter o prazer de, em uma visita, conversar com três senhoras lindas ao invés de uma só... E eu tive esse prazer hoje. Conversei com três senhoras muito parecidas... Mas completamente diferentes.

Dona Juracy é uma senhora de 70 anos. Viveu na roça, seu marido – sua alma gêmea, como ela mesma disse – trabalhava na prefeitura e não a deixou trabalhar fora de casa, como era de costume. Cuidou e continua cuidando de três filhos, já que hoje, apenas a mais velha está casada.
O que mais me chamou a atenção nessa senhora é que, apesar de muito simples, era de uma sabedoria que não cabia nela. Para mim, ela era a verdadeira filósofa... Aquela pessoa que vive e aprende com cada situação, que a revive, reflete sobre e constrói uma visão crítica sobre a vida, sobre as pessoas e as circunstâncias.
Dona Juracy falou, em pouco tempo de conversa, algumas frases que muito marcam meu estilo de vida.
Ela disse: “Nada é errado. O que é certo para você, é errado para mim. Tudo é relativo.” Realmente... Tudo tem sempre dois lados, e muitos pontos de vista.
Depois, falando do céu, da vida e da morte, perguntei como ela achava que era o paraíso... Ela me respondeu que “o paraíso é aqui, é em qualquer lugar... Ele depende você e de quem está com você”.
Eu nunca tinha pensado nisso... Não dessa forma. Resolvi então, que ia fazer dos meus dias sempre um paraíso.
Por fim, após contar que tinha perdido um filho, concluiu que “não adianta enlouquecer. Dói, mas logo estaremos todos juntos em outro plano”. Quanta serenidade, quanta fé, quanta certeza de algo tão doloroso.
Foi uma lição de vida.
A segunda senhora era totalmente diferente. Dona Nádia é famosa no Hospital. Como não conhecer tamanha alegria, espontaneidade e vontade de viver? É, sem sombra de dúvidas, uma das senhoras mais animadas do Hospital. Nádia é uma jovem idosa, cheia de vida, de histórias, e de vontade de viver... Ela vive à frente de seu tempo, é atualizada, sabe um pouco de cada coisa e trata qualquer situação com muita diversão.
Se descreve como perua. Ama inovar o cabelo, se baseia nas famosas para a escolha de roupas e tem uma opinião muito crítica, e particular em relação a travestis, homo e bissexuais. Falou sobre drogas, prostitutas, juventude, e de como as coisas “mudaram”. Mudaram entre aspas, porque ela afirmou que em seu tempo, tudo o que existe hoje já existia... Só que era tudo escondido!
Sempre jovem e inovadora, Dona Nádia terminou o papo falando sobre homens, e quais fazem seu tipo – homens fortes, tipo trabalhadores de campo, sexys e nada de corpinho lisinho.
Foi um barato ver uma criança presa naquele corpinho mais vivido.
Foi então que alguns anjos no quarto me falaram que havia uma senhora isolada, esperando por um bom papo. Olhei entre as cortinas e vi mesmo uma senhora frágil deitada de lado, de costas para mim. Achei que estava dormindo, mas elas insistiram para que eu fosse até lá. Fiz isso.
Dona Odete? E ela me olhou com olhinhos esperançosos. Perguntei se ela gostaria de conversar, ou se preferia descansar. Ela optou pela conversa.
Dona Odete pareceu ser bem menos cheia de vida que a Dona Nádia, e bem menos sonhadora que Dona Juracy. Seu corpo estava cansado, sua mente confusa, e seu coração apertado. Com 83 anos de idade, ela tinha passado pela dor mais dolorosa que uma mãe podia passar... Perdeu um filho. Tão recente, há poucas semanas, seus olhos marejavam toda vez que ela tocava no assunto. Eu podia ver, e sentir com ela, um nó na garganta quando dizia “foi infarto... Perdi um filho”.
Eu queria dar todo o meu amor para ela, pegá-la no colo e protegê-la dessa dor... E era exatamente isso o que aqueles olhos me pediam... Me pediam paz, socorro, esperança.
Eu conversei um pouco, dizendo que ele estava no melhor lugar do universo agora, olhando por ela todos os dias. Disse que ele estaria agora sempre com ela, e tentei mudar de assunto...
Senti que se eu não pudesse livrá-la daquela dor, poderia, pelo menos, compartilhar dela... E partilhando, talvez ela ficasse um pouco menor.
Dona Odete podia parecer ser menos cheia de vida, e menos sonhadora... Mas foi a que mais se entregou a mim, esperando um apoio, conforto... Uma amiga... E ela conseguiu ter o que eu mais prezo em mim... Meu coração.

4 comentários:

  1. emocionante.

    Isadora Rodrigues

    ResponderExcluir
  2. Nossa, essa história me encheu de lágrimas os olhos! É tão simples o que todos nós precisamos para viver bem, um pouco de paz, de carinho, de atenção, um minutinho para amenizar uma dor que parece não passar...O amor é contagioso!

    Luana Moraes

    ResponderExcluir
  3. O amor, o sorriso, o carinho, o calor...
    Bora emanar só coisa boa para viver bem!!

    (:

    ResponderExcluir