Que
prazer poder reencontrar senhoras que já conquistaram um espacinho do meu
coração toda vez que entro no hospital... Mesmo que elas não tenham ainda ido
para seus lares, meu coração sorri quando vejo um rosto amigo.
Melhor
ainda é ter o prazer de, em uma visita, conversar com três senhoras lindas ao
invés de uma só... E eu tive esse prazer hoje. Conversei com três senhoras
muito parecidas... Mas completamente diferentes.
Dona
Juracy é uma senhora de 70 anos. Viveu na roça, seu marido – sua alma gêmea,
como ela mesma disse – trabalhava na prefeitura e não a deixou trabalhar fora
de casa, como era de costume. Cuidou e continua cuidando de três filhos, já que
hoje, apenas a mais velha está casada.
O
que mais me chamou a atenção nessa senhora é que, apesar de muito simples, era
de uma sabedoria que não cabia nela. Para mim, ela era a verdadeira filósofa...
Aquela pessoa que vive e aprende com cada situação, que a revive, reflete sobre
e constrói uma visão crítica sobre a vida, sobre as pessoas e as
circunstâncias.
Dona
Juracy falou, em pouco tempo de conversa, algumas frases que muito marcam meu
estilo de vida.
Ela
disse: “Nada é errado. O que é certo para você, é errado para mim. Tudo é
relativo.” Realmente... Tudo tem sempre dois lados, e muitos pontos de vista.
Depois,
falando do céu, da vida e da morte, perguntei como ela achava que era o
paraíso... Ela me respondeu que “o paraíso é aqui, é em qualquer lugar... Ele
depende você e de quem está com você”.
Eu
nunca tinha pensado nisso... Não dessa forma. Resolvi então, que ia fazer dos
meus dias sempre um paraíso.
Por
fim, após contar que tinha perdido um filho, concluiu que “não adianta
enlouquecer. Dói, mas logo estaremos todos juntos em outro plano”. Quanta
serenidade, quanta fé, quanta certeza de algo tão doloroso.
Foi
uma lição de vida.
A
segunda senhora era totalmente diferente. Dona Nádia é famosa no Hospital. Como
não conhecer tamanha alegria, espontaneidade e vontade de viver? É, sem sombra
de dúvidas, uma das senhoras mais animadas do Hospital. Nádia é uma jovem
idosa, cheia de vida, de histórias, e de vontade de viver... Ela vive à frente
de seu tempo, é atualizada, sabe um pouco de cada coisa e trata qualquer
situação com muita diversão.
Se
descreve como perua. Ama inovar o cabelo, se baseia nas famosas para a escolha
de roupas e tem uma opinião muito crítica, e particular em relação a travestis,
homo e bissexuais. Falou sobre drogas, prostitutas, juventude, e de como as
coisas “mudaram”. Mudaram entre aspas, porque ela afirmou que em seu tempo,
tudo o que existe hoje já existia... Só que era tudo escondido!
Sempre
jovem e inovadora, Dona Nádia terminou o papo falando sobre homens, e quais
fazem seu tipo – homens fortes, tipo trabalhadores de campo, sexys e nada de
corpinho lisinho.
Foi
um barato ver uma criança presa naquele corpinho mais vivido.
Foi
então que alguns anjos no quarto me falaram que havia uma senhora isolada,
esperando por um bom papo. Olhei entre as cortinas e vi mesmo uma senhora
frágil deitada de lado, de costas para mim. Achei que estava dormindo, mas elas
insistiram para que eu fosse até lá. Fiz isso.
Dona
Odete? E ela me olhou com olhinhos esperançosos. Perguntei se ela gostaria de
conversar, ou se preferia descansar. Ela optou pela conversa.
Dona
Odete pareceu ser bem menos cheia de vida que a Dona Nádia, e bem menos
sonhadora que Dona Juracy. Seu corpo estava cansado, sua mente confusa, e seu
coração apertado. Com 83 anos de idade, ela tinha passado pela dor mais
dolorosa que uma mãe podia passar... Perdeu um filho. Tão recente, há poucas
semanas, seus olhos marejavam toda vez que ela tocava no assunto. Eu podia ver,
e sentir com ela, um nó na garganta quando dizia “foi infarto... Perdi um
filho”.
Eu
queria dar todo o meu amor para ela, pegá-la no colo e protegê-la dessa dor...
E era exatamente isso o que aqueles olhos me pediam... Me pediam paz, socorro,
esperança.
Eu
conversei um pouco, dizendo que ele estava no melhor lugar do universo agora,
olhando por ela todos os dias. Disse que ele estaria agora sempre com ela, e
tentei mudar de assunto...
Senti
que se eu não pudesse livrá-la daquela dor, poderia, pelo menos, compartilhar
dela... E partilhando, talvez ela ficasse um pouco menor.
Dona
Odete podia parecer ser menos cheia de vida, e menos sonhadora... Mas foi a que
mais se entregou a mim, esperando um apoio, conforto... Uma amiga... E ela
conseguiu ter o que eu mais prezo em mim... Meu coração.

emocionante.
ResponderExcluirIsadora Rodrigues
*-*
ResponderExcluirNossa, essa história me encheu de lágrimas os olhos! É tão simples o que todos nós precisamos para viver bem, um pouco de paz, de carinho, de atenção, um minutinho para amenizar uma dor que parece não passar...O amor é contagioso!
ResponderExcluirLuana Moraes
O amor, o sorriso, o carinho, o calor...
ResponderExcluirBora emanar só coisa boa para viver bem!!
(: